Salazar, tenha um

Posted: segunda-feira, 9 de abril de 2007 by Bublina in
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Não percebo a razão de tanta polémica à volta da nomeação de Salazar como o maior português de sempre num concurso televisivo.

A sério que me escapa.

Pessoalmente, não me incomoda que o velho professor de Santa Comba seja, depois de morto, trazido em glória ao mundo dos vivos. É não conhecer o espírito retorcido dos portugueses.Pensem bem: qual seria a razão dos portugueses quererem Salazar de volta quando têm tantos clones ao dispor, daqueles de trazer por casa e pelo emprego, mais refinados e modernos? De tanto lidar com taxistas, ouvir os protestos no autocarro e os amargos da vida no metro, tenho uma tese: os portugueses escolheram o Salazar por vingança. É verdade. À beira dos salazaritos que andam por aí nas repartições, nas empresas, nos bancos, enfim, nos lugares de posso, quero e mando, o provinciano António Oliveira até parece um menino do coro.

Eu sei bem que aqueles 48 anos foram dose. Censura, guerras, mortes, prisões e perseguições. Coisa de monta, mesmo nos dias de hoje. Caramba, mas nessa altura sabia-se de que lado estavam os bons e os maus, não? E mesmo os maus não deviam ser muitos, a julgar pelos que, depois de 74, apresentaram vastíssimo curriculum de defensores da liberdade. Mas adiante.

Ora, qualquer português tem hoje o seu Salazar de estimação. Eles andam aí, só falta aparecerem nas lojas dos trezentos ou dos chineses. Convenhamos: o que não falta no Portugal de hoje são pequenos tiranetes, estagiários da sacanice e engravatados da canalhice, a juntar aos refinados mangas de alpaca, chefes sinistros, torturadores de gabinete, escroques de unha pintada e trituradores de alma humana. Todos conhecemos um destes e, se calhar, até já bebemos um copo com ele, não vá a besta perceber que andamos mortinhos por lhe chegar a roupa ao pêlo.

Alguns, porém, não estão assim tão alcance da mão. Movem-se em salões e salinhas, corredores e entrelinhas, mansões e quintinhas. Arquitectam as mais modernas maneiras de fascistarem por aí – inventei agora – em democracia e liberdade.

A censura, estúpida e ignorante, continua sobre rodas (talvez por isso agora se chame... auto-censura). Ninguém vai preso por protestar, dizer o que pensa, levantar o varapau. É apenas despedido ou votado ao mais completo mofo e desprezo. Neste Portugal europeu e comunitário, até os agentes da PIDE estariam deslocados. Vinham tirar o lugar a quem? Aos bufos e sabujos da secretária do lado?

Portugal tem um povo raro, de morder pela calada. Raramente os portugueses falam de frente. Preferem roer pragas, furar um pneu ou fazer ronha. Só quando a tampa salta é que ainda puxa do sarrafo. A revolução aconteceu num dia em que parecia que estava tudo bem, não foi? Pois, enganaram-se. «As iludências aparudem», já dizia o outro.

Como passa o dia (e a noite) diante do televisor, o português, manhoso, socorreu-se agora do telecomando e escolheu o Salazar que estava à mão para, em jeito de protesto cifrado, simbolizar no velho pai tirano os muitos salazaritos que lhe estragam a vida. Ou não fosse o telecomando o voto mais livre dos nossos dias. Não? Se me apetecer, mudo de País, de canal, de novela, de políticos e de chatices. Até de humor. Com um simples toque, até desligo do País, apago-o. Com estes dedinhos aqui, ó! E viro costas ao mundo. E ainda me poupo aos engarrafamentos e filas de gente para escolher o doutor ou o engenheiro que os partidos me recomendam para o Governo, a câmara ou a freguesia.

Vá lá, convençam-se: a resposta para a escolha de Salazar é esta e é simples. Não adianta pôr o País mais uma vez no divã por causa disso. Já basta o que ele toma de ansióliticos e antidepressivos para aturar os salazaritos que lhe tiram o sono.

3 opiniadela(s):

  1. Anónimo says:

    infelizmente é a verdade, temos muitos salazaritos por aí. A mim também me parece qua a eleição de Salazar foi um voto de protesto, mas um voto triste e estúpido, de um país rural e suburbano, sem educação. ouvi um comentador político dizer que a eleição de Salazar era um voto contra a corrupção, mas no tempo do Ditador já havia corrupção, era camuflada com a ideia de salvação nacional. os problemas agora são mais visíveis mas naquela altura já existiam sim.
    e não me vêm com a treta qua salazar era bom em finanças, se bom era baixar ordenados a níveis inacreditáveis, aumentar impostos e enriquecer com o ouro nazi, enquanto o país morria à fome?!entãosó posso dizer que temos tido nos ultimos tempos outros excelentes ministros das finanças, porque agora vivemos a mesma situação, mas pelo menos podemos protestar!!!não ceitei, não aceito e jamais aceitarei que Salazar é o maior português de sempre!!

  1. Vladimir says:

    parece que o Salazar está na moda...quem diria que isto viria a acontecer...

  1. Vladimir says:

    Refere François Chateaubriand que “não somos nada, sem felicidade”.

    Qual é a sua opinião sobre este tema?