Posted: sábado, 25 de fevereiro de 2012 by Bublina in
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Foste um companheiro de vida, ou melhor, de muitas vidas!

Chegaste ao colo, à boleia no velho Golf... vinhas com um ar assustado e ao mesmo tempo curioso. Eras tão pequenino! Já tinhas, então, um ar esperto e arrebitado... eras curioso, gostavas de estar ao pé das pessoas e sempre te portaste bem! A mãe baptizou-te de Rex... não havia consenso com o teu nome!

Nunca fizeste as asneiras terríveis que um cachorro faz habitualmente... nunca roeste um sapato, nunca estragaste uma planta, nem sequer fizeste xixi em casa!

Não eras muito sociável ao primeiro contacto... primeiro tinhas de cheirar e inspeccionar para deixares que te mexessem. Mas quando gostavas, não o escondias, abanavas o rabo freneticamente e conseguias fazer o ar mais feliz do mundo! Já os miúdos não te agradavam particularmente... Também não eras beijoqueiro, pelo contrário! Acho que só te vi dares beijinhos deliberados por auto recriação à mãe.

E foste crescendo e crescendo também a tua companhia... vieste quando a mãe estava doente e acompanhaste-a todos os minutos, porque ela foi a tua primeira paixão! A tua dona, que veneravas como ninguém, aquela pessoa de quem gostavas tanto que não conseguias estar longe dela, ou do cheiro dela. E por isso, quando ela estava longe ou saía, ias a correr buscar a primeira roupa que encontravas dela e não deixavas que nada nem ninguém te roubasse esse prazer. Mas a paixão era mútua, porque ela adorava-te... eras o cão que ela sempre quis ter... um cão que ela levasse à rua sem trela e que a acompanhasse. Acompanhaste-a todos os minutos... até ao dia em que piorou e já não te podia dar a assistência que precisavas, e por isso, ias à rua sozinho, fazias as tuas coisas a correr e voltavas para ficar ao lado dela. Acompanhaste-a até ao dia que também ela nos deixou.

Foi uma época conturbada essa... a semana antes tiveste um grande acidente! Perdeste um olho e transformaste-te num pirata! Nem sequer percebeste que a mãe tinha partido, porque andavas muito ocupado entre remédios e hospital. Como tu odiavas o funil... tanto que não aguentou até ao ultimo dia, quando partiu em mais uma das investidas que fazias continuamente contra o passeio. Já antes desse triste episódio, tiveste outros... 2 atropelamentos! Era o teu destino... parece que as estrelas escreveram no céu que era assim que tinha de ser. O ano passado começaste a mostrar os primeiros sinais de velhice e tiveste de ir ao ‘dentista’, porque tinhas um dente partido! No final do ano tivemos outro grande susto... um animal, bem menos racional que tu, atropelou-te e deixou-te uma bacia partida e um fémur deslocado. Lá fomos nós outra vez para o hospital... e andamos semanas a tratar de ti como um bebé. Não percebias como se andava só com três pernas, não podias ir à rua, tinhas feridas que tinham de ser tratadas, andavas novamente de funil... um verdadeiro martírio! Mas mais uma vez recuperaste e voltaste a ser o pirata do costume.

Depois da mãe partir, tiveste de encontrar outra paixão... o teu novo companheiro de vida! Desta vez adoptas-te o pai... que seguias em todos os passos que dava. Vocês sim eram verdadeiros compinchas! Até na cegueira... Com ele aprendeste outras coisas e ganhaste outras manias. Atravessavas a rua quando só ele te mandava e o que tu adoravas a rua... às vezes só para ver passar os carros no cimo das escadas. O pai também te deixava saltar para a janela, coisa que me punha doida, porque eu achava que ia chegar o dia em que não travavas a tempo e acabavas estatelado no terraço. Todos sabiam que quando estavas na rua o pai estava contigo, todos sabiam que andavam sempre juntos. Foi com ele que te tornaste um cão de hábitos e rotinas, por exemplo, todos os dias esperavas por mim no cimo da escada para seres o primeiro a cheirar o almoço! Ficavas no primeiro patamar a abanar o rabo... e até me davas beijinhos se eu tos pedisse só para poderes cheirar o saco! E o pai gostava muito, muito de ti... mesmo quando reclamava que passava a vida a tropeçar em ti ou que não o deixavas fazer a barba como deve de ser de manhã, só porque querias ir à rua. Mas depois, sempre que almoçava fora trazia um ossito para o seu amigo! E contava as tuas aventuras com muito orgulho! Tu acabavas por ser uma versão canina do pai!

Não consigo enumerar a quantidade de palavras que conhecias... eram tantas! Eras verdadeiramente esperto! Tão esperto que às vezes percebias apenas pequenos acenos ou olhares. Rua, café, senta, queres, toma, quintal, sinal, tirinha, cama, banho, dono, trela, olha... entre tantas, tantas outras que sabias!

Viajar contigo ao início era fácil... arrumavas-te aos pés da mãe e ali ficavas a viagem toda. De vez em quando levantavas a cabeça para ‘snifar’ a saída do ar. Depois começou a ser complicado... não conseguias estar quieto no mesmo lugar por muito tempo e isso começou a deixar o pai chateado, que prontamente te comprou um castigo – a caixa de transporte! Ao inicio não querias entrar, mas lá te foste habituando. Se a velocidade não era alta, achavas que já devíamos estar a chegar e começava a chinfrineira... ganias só porque sim! Mas gostavas quando te deixava ir à janela, ao vento!

O outro grande castigo que tinhas era a trela, ou qualquer forma de trela... odiavas que te pusessem coisas à volta do pescoço! Amuavas! Amuavas de tal maneira que não tiravas o rabo da cama, nem para ir à rua!

Eras um vira-latas, como dizia a mãe. Adoravas meter o focinho no lixo só para ver se havia qualquer coisa que se aproveitasse... assim como também eras um pedinte! Passavas as refeições todas a pedinchar comida, como se não te alimentassem há dias. Só eras incapaz de pedir se a comida não te agradasse ou se estivesses doente (raras vezes). Tinhas alimentos preferidos, porque eras guloso... preferias peixe à carne, mas comias tudo... que mais não fosse para te darem algo que gostasses a seguir. Fazias fitas de meia noite para comer o que não te agradava... mastigavas, mastigavas e deitavas fora! Mas acabavas por comer, porque sabias que depois viria a recompensa. Adoravas lanchar com pai... pão e queijo! Vi-te comer alface, m&m’s, pipocas, feijão, batatas fritas, fruta, brócolos...

Ir ao veterinário era outra aventura... nossa! Passei algumas vergonhas contigo... eu entrava no gabinete e tu saias! Eras muito mariquinhas... olhavas sempre para ver o que te estavam a fazer. Mas o ano passado enfiaste a cabeça dentro da minha mala... Tomar medicamentos também podia ser uma aventura. Se fossem comprimidos bem disfarçados em queijo fresco ou em patê do veterinário a coisa passava, mas se vinha em formato de seringa...

Quando eras puto gostavas de brinquedos, quer fossem de cão ou não. Podiam ser daqueles que apitavam (duravam 5 minutos... o tempo suficiente para arrancares o apito) ou peluches (que esventravas num abrir e fechar de olhos). Também gostavas de bolas... Com a idade foste perdendo a vontade de brincar tanto, mas ao fim do dia tinhas sempre acessos de brincadeira. E havia uma que só fazias comigo: jogar às escondidas! Eu escondia-me e tu vinhas pata ante pata espreitar e encontrar-me!

Havia outra coisa que tinhas só comigo... provocação mútua! Adorava provocar-te, em especial às refeições, e tu respondias sempre... às vezes bastava olhar para ti e arregalar-te os olhos! Ficavas doido, possuído quando te dizia que a mãe e depois o pai eram meus...

Gostavas de passear... ir à praia correr... perseguir gatos... ver carros passar... correr atrás do carteiro, do homem da luz, pessoas de cor, bicicletas, camionetas... imitar as sirenes dos bombeiros, ambulâncias, polícia... eras giro! Esse ar meio rafeiro dava-te pinta! Afinal não são todos que se dão ao luxo de andar de rabo às costas e ter tufos de pelo no rabo e atrás das orelhas!

Eras, foste um verdadeiro companheiro, porque estavas sempre lá... mesmo nos momentos tristes, percebias quando algo não estava bem e ficavas lá muito quieto... a fazer companhia!

Gostavas de ir para a terra, porque lá eras verdadeiramente feliz e livre... fugias para ires passear e ver as ‘miúdas’. Também arranjaste por lá umas lutas, incluindo uma que te ia matando se eu não estivesse em casa. E foi lá que desapareceste e foi lá que acabaste por ficar... disseram-me que estás no nosso quintal...

Sinto que fica muito por dizer e contar... e que a vida ficou um bocadinho mais triste...

E parece...

Posted: sábado, 18 de junho de 2011 by Bublina in
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... que este blog tem os dias contados!

Em contagem decrescente...
...caput!

em modo...

Posted: quarta-feira, 2 de março de 2011 by Bublina in
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... repeat?

Elogio do amor...

Posted: quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011 by Bublina in
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"Quero fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado.

Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.

Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.

Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá tudo bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?

O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.

O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não dá para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser.

O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.

Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir.

A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."

Miguel Esteves Cardoso
in EXPRESSO

Posted: segunda-feira, 17 de janeiro de 2011 by Bublina in
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CÂNTIGO NEGRO

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse...
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.

É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!


José Régio.

Posted: quarta-feira, 22 de dezembro de 2010 by Bublina in
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Ando por aqui...

Posted: sábado, 11 de setembro de 2010 by Bublina in
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