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Foste um companheiro de vida, ou
melhor, de muitas vidas!
Chegaste ao colo, à boleia no
velho Golf... vinhas com um ar assustado e ao mesmo tempo curioso. Eras tão
pequenino! Já tinhas, então, um ar esperto e arrebitado... eras curioso,
gostavas de estar ao pé das pessoas e sempre te portaste bem! A mãe baptizou-te
de Rex... não havia consenso com o teu nome!
Nunca fizeste as asneiras
terríveis que um cachorro faz habitualmente... nunca roeste um sapato, nunca
estragaste uma planta, nem sequer fizeste xixi em casa!
Não eras muito sociável ao
primeiro contacto... primeiro tinhas de cheirar e inspeccionar para deixares
que te mexessem. Mas quando gostavas, não o escondias, abanavas o rabo
freneticamente e conseguias fazer o ar mais feliz do mundo! Já os miúdos não te
agradavam particularmente... Também não eras beijoqueiro, pelo contrário! Acho
que só te vi dares beijinhos deliberados por auto recriação à mãe.
E foste crescendo e crescendo
também a tua companhia... vieste quando a mãe estava doente e acompanhaste-a
todos os minutos, porque ela foi a tua primeira paixão! A tua dona, que
veneravas como ninguém, aquela pessoa de quem gostavas tanto que não conseguias
estar longe dela, ou do cheiro dela. E por isso, quando ela estava longe ou saía,
ias a correr buscar a primeira roupa que encontravas dela e não deixavas que
nada nem ninguém te roubasse esse prazer. Mas a paixão era mútua, porque ela
adorava-te... eras o cão que ela sempre quis ter... um cão que ela levasse à
rua sem trela e que a acompanhasse. Acompanhaste-a todos os minutos... até ao
dia em que piorou e já não te podia dar a assistência que precisavas, e por
isso, ias à rua sozinho, fazias as tuas coisas a correr e voltavas para ficar
ao lado dela. Acompanhaste-a até ao dia que também ela nos deixou.
Foi uma época conturbada essa...
a semana antes tiveste um grande acidente! Perdeste um olho e transformaste-te
num pirata! Nem sequer percebeste que a mãe tinha partido, porque andavas
muito ocupado entre remédios e hospital. Como tu odiavas o funil... tanto que
não aguentou até ao ultimo dia, quando partiu em mais uma das investidas que
fazias continuamente contra o passeio. Já antes desse triste episódio, tiveste
outros... 2 atropelamentos! Era o teu destino... parece que as estrelas
escreveram no céu que era assim que tinha de ser. O ano passado começaste a
mostrar os primeiros sinais de velhice e tiveste de ir ao ‘dentista’, porque
tinhas um dente partido! No final do ano tivemos outro grande susto... um
animal, bem menos racional que tu, atropelou-te e deixou-te uma bacia partida e
um fémur deslocado. Lá fomos nós outra vez para o hospital... e andamos semanas
a tratar de ti como um bebé. Não percebias como se andava só com três pernas,
não podias ir à rua, tinhas feridas que tinham de ser tratadas, andavas
novamente de funil... um verdadeiro martírio! Mas mais uma vez recuperaste e
voltaste a ser o pirata do costume.
Depois da mãe partir, tiveste de
encontrar outra paixão... o teu novo companheiro de vida! Desta vez adoptas-te
o pai... que seguias em todos os passos que dava. Vocês sim eram verdadeiros compinchas!
Até na cegueira... Com ele aprendeste outras coisas e ganhaste outras manias.
Atravessavas a rua quando só ele te mandava e o que tu adoravas a rua... às
vezes só para ver passar os carros no cimo das escadas. O pai também te deixava
saltar para a janela, coisa que me punha doida, porque eu achava que ia chegar
o dia em que não travavas a tempo e acabavas estatelado no terraço. Todos
sabiam que quando estavas na rua o pai estava contigo, todos sabiam que andavam
sempre juntos. Foi com ele que te tornaste um cão de hábitos e rotinas, por
exemplo, todos os dias esperavas por mim no cimo da escada para seres o
primeiro a cheirar o almoço! Ficavas no primeiro patamar a abanar o rabo... e
até me davas beijinhos se eu tos pedisse só para poderes cheirar o saco! E o
pai gostava muito, muito de ti... mesmo quando reclamava que passava a vida a
tropeçar em ti ou que não o deixavas fazer a barba como deve de ser de manhã,
só porque querias ir à rua. Mas depois, sempre que almoçava fora trazia um
ossito para o seu amigo! E contava as tuas aventuras com muito orgulho! Tu
acabavas por ser uma versão canina do pai!
Não consigo enumerar a quantidade
de palavras que conhecias... eram tantas! Eras verdadeiramente esperto! Tão
esperto que às vezes percebias apenas pequenos acenos ou olhares. Rua, café,
senta, queres, toma, quintal, sinal, tirinha, cama, banho, dono, trela, olha... entre
tantas, tantas outras que sabias!
Viajar contigo ao início era
fácil... arrumavas-te aos pés da mãe e ali ficavas a viagem toda. De vez em
quando levantavas a cabeça para ‘snifar’ a saída do ar. Depois começou a ser
complicado... não conseguias estar quieto no mesmo lugar por muito tempo e isso
começou a deixar o pai chateado, que prontamente te comprou um castigo – a
caixa de transporte! Ao inicio não querias entrar, mas lá te foste habituando.
Se a velocidade não era alta, achavas que já devíamos estar a chegar e começava
a chinfrineira... ganias só porque sim! Mas gostavas quando te deixava ir à
janela, ao vento!
O outro grande castigo que tinhas
era a trela, ou qualquer forma de trela... odiavas que te pusessem coisas à
volta do pescoço! Amuavas! Amuavas de tal maneira que não tiravas o rabo da
cama, nem para ir à rua!
Eras um vira-latas, como dizia a
mãe. Adoravas meter o focinho no lixo só para ver se havia qualquer coisa que
se aproveitasse... assim como também eras um pedinte! Passavas as refeições
todas a pedinchar comida, como se não te alimentassem há dias. Só eras incapaz
de pedir se a comida não te agradasse ou se estivesses doente (raras vezes).
Tinhas alimentos preferidos, porque eras guloso... preferias peixe à carne, mas
comias tudo... que mais não fosse para te darem algo que gostasses a seguir.
Fazias fitas de meia noite para comer o que não te agradava... mastigavas,
mastigavas e deitavas fora! Mas acabavas por comer, porque sabias que depois
viria a recompensa. Adoravas lanchar com pai... pão e queijo! Vi-te comer
alface, m&m’s, pipocas, feijão, batatas fritas, fruta, brócolos...
Ir ao veterinário era outra
aventura... nossa! Passei algumas vergonhas contigo... eu entrava no gabinete e
tu saias! Eras muito mariquinhas... olhavas sempre para ver o que te estavam a
fazer. Mas o ano passado enfiaste a cabeça dentro da minha mala... Tomar
medicamentos também podia ser uma aventura. Se fossem comprimidos bem
disfarçados em queijo fresco ou em patê do veterinário a coisa passava, mas se
vinha em formato de seringa...
Quando eras puto gostavas de
brinquedos, quer fossem de cão ou não. Podiam ser daqueles que apitavam
(duravam 5 minutos... o tempo suficiente para arrancares o apito) ou peluches
(que esventravas num abrir e fechar de olhos). Também gostavas de bolas... Com a
idade foste perdendo a vontade de brincar tanto, mas ao fim do dia tinhas
sempre acessos de brincadeira. E havia uma que só fazias comigo: jogar às
escondidas! Eu escondia-me e tu vinhas pata ante pata espreitar e encontrar-me!
Havia outra coisa que tinhas só
comigo... provocação mútua! Adorava provocar-te, em especial às refeições, e tu
respondias sempre... às vezes bastava olhar para ti e arregalar-te os olhos!
Ficavas doido, possuído quando te dizia que a mãe e depois o pai eram meus...
Gostavas de passear... ir à praia
correr... perseguir gatos... ver carros passar... correr atrás do carteiro, do
homem da luz, pessoas de cor, bicicletas, camionetas... imitar as sirenes dos
bombeiros, ambulâncias, polícia... eras giro! Esse ar meio rafeiro dava-te
pinta! Afinal não são todos que se dão ao luxo de andar de rabo às costas e ter
tufos de pelo no rabo e atrás das orelhas!
Eras, foste um verdadeiro
companheiro, porque estavas sempre lá... mesmo nos momentos tristes, percebias quando
algo não estava bem e ficavas lá muito quieto... a fazer companhia!
Gostavas de ir para a terra,
porque lá eras verdadeiramente feliz e livre... fugias para ires passear e ver
as ‘miúdas’. Também arranjaste por lá umas lutas, incluindo uma que te ia
matando se eu não estivesse em casa. E foi lá que desapareceste e foi lá que
acabaste por ficar... disseram-me que estás no nosso quintal...
Sinto que fica muito por dizer e contar... e que a vida ficou um
bocadinho mais triste...

